RETRATO DE UMA TRAGÉDIA

Quando baixarem as águas desta devastadora enchente, nossos olhos irão se deparar com uma realidade muito diferente, e vamos constatar que também nós, como indivíduos, não somos mais os mesmos. Como diz a canção, nada será como antes. Contudo, em cima dos escombros, apresenta-se a oportunidade de construirmos um estado mais previsível, mais seguro e mais solidário. 

O cenário que assistimos expõe, de um lado, um número inusitado de vítimas da catástrofe e, de outro, um número inimaginável de doadores e voluntários que espontaneamente formaram uma imensa rede de atendimento de pessoas e animais resgatados das áreas alagadas. Entre os últimos, observa-se um sentimento de responsabilidade muito grande em relação aos primeiros, configurando uma unidade acima de qualquer diferença. 

Nossa interpretação é de que esses gestos humanitários refletem um esforço de resgatar um vínculo de integração social, gerador do indispensável sentimento existencial de pertencimento, rompido pela inesperada aniquilação da estrutura sustentadora das nossas relações com o mundo que nos cerca.

 Cabe entender que tudo se passou como se um mundo novo subitamente se apresentasse sob a forma de um desafio à subsistência de um povo orgulhoso de suas façanhas, que foi buscar em suas tradições a força necessária para lutar contra a impetuosidade da natureza.

Os próximos dias e, também, as próximas noites, porque não terá descanso, por certo serão muitos e difíceis, mas se não esmorecemos, sairemos dessa batalha fortalecidos como seres humanos. De acordo com as palavras de C. S. Lewis, as dificuldades preparam pessoas comuns para destinos extraordinários. 

 

ARMAS SÃO PARA MATAR

ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL ZERO HORA

EM 04 DE FEVEREIRO DE 2022

        O ser humano nasce dotado de duas forças instintivas antagônicas que buscam descarga: amor e destrutividade, também denominadas pulsão de vida e pulsão de morte, respectivamente. Essas duas forças encontram uma saída criativa para as relações humanas quando se mesclam de uma forma em que a primeira consegue colocar a segunda a seu serviço. Contudo, em função de uma variedade de fatores internos e externos agindo sobre o anímico, entre os quais se inclui a educação, parte da destrutividade pode permanecer não mesclada, portanto, livre. Nesse caso, o indivíduo tenderá a apresentar uma conduta de pura agressividade. 

A evidência dessa dotação destrutiva do ser humano encontra-se representada na cultura pela permanência das guerras, quando as nações, por razões na maioria das vezes falsas, mas sempre injustificadamente, obrigam aos seus filhos a participarem de um ritual fraticida. Einstein, que considerava o serviço militar uma educação para a guerra, equiparou cada indivíduo armado em uma sociedade a uma célula potencialmente destrutiva. Desde os tempos romanos repete-se a frase Si vis pacem para bellum (Se queres a paz, prepara-te para a guerra), a qual implica uma contradição semântica que visa a eludir o verdadeiro objetivo de se preparar para a guerra: matar pessoas.   

No plano individual, ao adquirir uma arma com o pretexto de se proteger, a pessoa busca primariamente satisfazer sua pulsão de morte, a qual será por fim atendida quando ela  deparar, geralmente à seus critério, com um motivo justo. Alguns se satisfazem atirando contra animais, outros contra o desenho de uma figura humana.  Não podemos fugir dessa realidade: armas são feitas para destruir, não para amar, embora o amor muitas vezes seja utilizado como desculpa para matar. Contribuímos para o desenvolvimento da humanidade quando agimos em favor do desarmamento, da hospitalidade e da aceitação das diferenças. 

 

O TERCEIRO NO RELACIONAMENTO CONJUGAL E ANALÍTICO

Freud aventou a hipótese de que a herança arcaica do ser humano não abarca somente predisposições, mas também conteúdos, ou seja, marcas mnêmicas das vivências das gerações anteriores, as quais funcionariam à maneira das “categorias” kantianas conduzindo as associações do pensamento do ser humano, impondo-se às vivências atuais.  Com base nessa ideia descreveu as chamadas “fantasias primordiais” ou “fantasias universais herdadas”,  que são cinco: a volta ao ventre materno, que a Pietá de Miguel Angelo não deixa dúvida, a cena primária, a sedução por um adulto, a ameaça de castração e a novela familiar .

Em relação à cena primária, que pretendemos abordar neste breve artigo, cabe destacar a ênfase em sua conotação traumática conferida por Freud no Homem dos Lobos e observada quase com exclusividade por seus seguidores até nossos dias. Não obstante, também precisamos ter presente o aspecto seminal da cena primária na criatividade do indivíduo, em particular no relacionamento sexual, o qual, assim como naquela, envolve inevitavelmente três personagens, sendo o terceiro o arauto da representação não traumática do coito dos pais. 

No relacionamento conjugal, quando falta o terceiro, representado pelas fantasias infantis mobilizadas pela cena primária, obviamente não presenciada, quando se torna traumática, mas apenas imaginada, com muita frequência um dos cônjuges, ou ambos, vão em busca desse terceiro criativo numa relação fora do casamento. No passado essas infidelidades eram guardadas “a sete chaves” no baú dos segredos da sociedade.  Porém, atualmente, com uma maior liberdade sexual, são muitos os registros de situações em que o casal, de comum acordo, inclui na cena conjugal o representante não traumático do fantasiado coito dos pais devido à sua incapacidade de criá-lo sem a ajuda de um terceiro real. 

 O tema em apreço, superpõe-se  a outro ao qual se ajustaria o título de “culto e profanação”, pois uma das dificuldades equivalentes à cena primária traumática é a culpa pelas fantasias a ela relacionada e a consequente dissociação da relação sexual  naquela que o indivíduo pratica com a mulher representante da mãe, que é cultuada, portanto, destituída de prazer, e naquela que ele pratica com a “outra”, representante do terceiro da cena primária, que vem a ser o próprio indivíduo, na qual o sexo é profanado.   Obviamente, existe uma equivalência entre homens e mulheres no que diz respeito a esse processo defensivo, devendo-se atribuir a uma maior ou menor repressão sexual qualquer diferença que se possa observar. 

Assim como relação conjugal, na relação analítica a criação de um terceiro é indispensável para o sucesso do tratamento, sendo  este terceiro   metamorfoseado  pelo livre trânsito das fantasias sexuais infantis no eixo transferencial-contratrasferencial.  Portanto, como conclusão, é possível dizer que a felicidade proporcionada por meio tanto do relacionamento conjugal  quanto analítico, depende da criação e permanência de um terceiro e, como ponto final, não é demais ainda consignar que a cena primária é uma das principais fontes inspiradoras das artes e da literatura. 

 

  Médico, psiquiatra e psicanalista. Membro fundador e didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise. Professor da Fundação Universitária Mário Martins. Autor de livros, entre os quais A Clínica Psicanalítica das Psicopatologias Contemporâneas e On Freud’s “The Questiono of Lay Analysis, editado com Paulo César Sandler, o mais recente. 
  Um trabalho sobre  o conjunto das “fantasias primordiais” encontra-se em elaboração pelo autor. 

 

Gley P. Costa

* Médico psiquiatra e psicanalista, professor de cursos de pós-graduação e escritor.