Freud aventou a hipótese de que a herança arcaica do ser humano não abarca somente predisposições, mas também conteúdos, ou seja, marcas mnêmicas das vivências das gerações anteriores, as quais funcionariam à maneira das “categorias” kantianas conduzindo as associações do pensamento do ser humano, impondo-se às vivências atuais. Com base nessa ideia descreveu as chamadas “fantasias primordiais” ou “fantasias universais herdadas”, que são cinco: a volta ao ventre materno, que a Pietá de Miguel Angelo não deixa dúvida, a cena primária, a sedução por um adulto, a ameaça de castração e a novela familiar .
Em relação à cena primária, que pretendemos abordar neste breve artigo, cabe destacar a ênfase em sua conotação traumática conferida por Freud no Homem dos Lobos e observada quase com exclusividade por seus seguidores até nossos dias. Não obstante, também precisamos ter presente o aspecto seminal da cena primária na criatividade do indivíduo, em particular no relacionamento sexual, o qual, assim como naquela, envolve inevitavelmente três personagens, sendo o terceiro o arauto da representação não traumática do coito dos pais.
No relacionamento conjugal, quando falta o terceiro, representado pelas fantasias infantis mobilizadas pela cena primária, obviamente não presenciada, quando se torna traumática, mas apenas imaginada, com muita frequência um dos cônjuges, ou ambos, vão em busca desse terceiro criativo numa relação fora do casamento. No passado essas infidelidades eram guardadas “a sete chaves” no baú dos segredos da sociedade. Porém, atualmente, com uma maior liberdade sexual, são muitos os registros de situações em que o casal, de comum acordo, inclui na cena conjugal o representante não traumático do fantasiado coito dos pais devido à sua incapacidade de criá-lo sem a ajuda de um terceiro real.
O tema em apreço, superpõe-se a outro ao qual se ajustaria o título de “culto e profanação”, pois uma das dificuldades equivalentes à cena primária traumática é a culpa pelas fantasias a ela relacionada e a consequente dissociação da relação sexual naquela que o indivíduo pratica com a mulher representante da mãe, que é cultuada, portanto, destituída de prazer, e naquela que ele pratica com a “outra”, representante do terceiro da cena primária, que vem a ser o próprio indivíduo, na qual o sexo é profanado. Obviamente, existe uma equivalência entre homens e mulheres no que diz respeito a esse processo defensivo, devendo-se atribuir a uma maior ou menor repressão sexual qualquer diferença que se possa observar.
Assim como relação conjugal, na relação analítica a criação de um terceiro é indispensável para o sucesso do tratamento, sendo este terceiro metamorfoseado pelo livre trânsito das fantasias sexuais infantis no eixo transferencial-contratrasferencial. Portanto, como conclusão, é possível dizer que a felicidade proporcionada por meio tanto do relacionamento conjugal quanto analítico, depende da criação e permanência de um terceiro e, como ponto final, não é demais ainda consignar que a cena primária é uma das principais fontes inspiradoras das artes e da literatura.
Médico, psiquiatra e psicanalista. Membro fundador e didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise. Professor da Fundação Universitária Mário Martins. Autor de livros, entre os quais A Clínica Psicanalítica das Psicopatologias Contemporâneas e On Freud’s “The Questiono of Lay Analysis, editado com Paulo César Sandler, o mais recente. Um trabalho sobre o conjunto das “fantasias primordiais” encontra-se em elaboração pelo autor.