Nascimento e morte do heroi

Escrito pelo polonês Jurek Becker, o romance Jakob, o mentiroso é considerado uma das obras-primas da literatura sobre o Holocausto. Na contramão da trágica experiência vivida com a família durante o nazismo, numa típica narrativa da tradição judaica, Becker criou uma história bem-humorada e de refinada beleza, cujo personagem se tornou herói porque inventou receber comunicados frequentes do front, segundo os quais os russos estavam se aproximando e, com eles, o dia da libertação do gueto. Embora a história fosse improvável, ele era diariamente induzido pelos companheiros a manter a mentira, com a qual alimentavam a esperança de escapar da morte.

Ao conceber um personagem sem méritos, quase um imbecil, Becker desmascara com rara inteligência e criatividade a verdadeira motivação do surgimento do herói, assim como descortina o seu destino: tornar-se escravo dos anseios do seu criador, sob a pena de cair no esquecimento ou mesmo em desgraça. Por conta disso, os heróis encarnados costumam ter vida curta. Permanecem os heróis da fantasia. 

A noção histórica de herói é essencialmente da mesma natureza do mito: eles nascem juntos nas tragédias através de falaciosas façanhas  de salvação frente a um inimigo real ou imaginário, não raro criado com o objetivo de despertar  o medo na população de vir a ser subjulgada ou destruída. No mundo moderno, Hitler, Stalin e Mussolini não foram os únicos exemplos, e estamos sempre expostos ao surgimento de novos heróis, nem sempre apenas imbecis e, até certo ponto bondosos, como o personagem de Becker, mas dotados de uma mente obstinada, cujas ações revelam uma personalidade megalômana com arroubos autoritários.

[1]Membro fundador, titular e didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre.

O DESAMPARO DO BRASILEIRO

Em todas as etapas do seu desenvolvimento, nada é mais comum aos seres humanos que o sentimento de desamparo. Nos primórdios da civilização, esse sentimento foi o responsável pelo surgimento do totemismo e, na sequência, das religiões, por meio das quais o homem, frente aos desafios que ameaçam a sua sobrevivência, busca o amparo de uma força superior. 

Não é para menos que, ao nascer, o desamparo é a primeira experiência de desvalimento com que a criança se defronta e, dia após dia, encontra o apaziguamento desse sofrimento no colo que a mãe lhe oferece.  A arte profana e religiosa de todas as épocas reproduz esta cena que expressa a necessidade humana de um envoltório protetor do nascimento à morte.

A sociedade, organizada com executivo, legislativo e judiciário, representa uma forma avançada de o indivíduo obter segurança. Com esse objetivo, aliás, trabalha e paga os imposto que lhe são cobrados. 

Contudo, na atualidade, os brasileiros de todas as classes sociais deixaram de  confiar nesse indispensável meio de proteção, uma vez que grande número de integrantes desses poderes encontram-se de costas para as necessidades do povo e dedicam  sua força de trabalho para auferir vantagens pessoais e  encobrir seus ilícitos. 

As pessoas passam, então, a se sentir inseguras cada vez que saem de casa para trabalhar, buscar um filho na escola ou visitar um amigo. Como se não bastasse, seus empregos e seus negócios encontram-se cercados de incertezas. Ser roubado e morto tornou-se um risco diário. Esse estado permanente de medo pode determinar a depressão do sistema imunológico, tornando os indivíduos mais vulneráveis às doenças. 

A seguirem as coisas como estão, em curto espaço de tempo, embora dentro do próprio país, os brasileiros correm o risco de desenvolverem um quadro de melancolia coletiva, semelhante ao que ocorria com os  negros subtraídos de suas aldeias na África e trazidos para o Brasil como escravos: um fenômeno denominado banzo, resultado da nostalgia e do desamparo radical.