Nascimento e morte do heroi

Escrito pelo polonês Jurek Becker, o romance Jakob, o mentiroso é considerado uma das obras-primas da literatura sobre o Holocausto. Na contramão da trágica experiência vivida com a família durante o nazismo, numa típica narrativa da tradição judaica, Becker criou uma história bem-humorada e de refinada beleza, cujo personagem se tornou herói porque inventou receber comunicados frequentes do front, segundo os quais os russos estavam se aproximando e, com eles, o dia da libertação do gueto. Embora a história fosse improvável, ele era diariamente induzido pelos companheiros a manter a mentira, com a qual alimentavam a esperança de escapar da morte.

Ao conceber um personagem sem méritos, quase um imbecil, Becker desmascara com rara inteligência e criatividade a verdadeira motivação do surgimento do herói, assim como descortina o seu destino: tornar-se escravo dos anseios do seu criador, sob a pena de cair no esquecimento ou mesmo em desgraça. Por conta disso, os heróis encarnados costumam ter vida curta. Permanecem os heróis da fantasia. 

A noção histórica de herói é essencialmente da mesma natureza do mito: eles nascem juntos nas tragédias através de falaciosas façanhas  de salvação frente a um inimigo real ou imaginário, não raro criado com o objetivo de despertar  o medo na população de vir a ser subjulgada ou destruída. No mundo moderno, Hitler, Stalin e Mussolini não foram os únicos exemplos, e estamos sempre expostos ao surgimento de novos heróis, nem sempre apenas imbecis e, até certo ponto bondosos, como o personagem de Becker, mas dotados de uma mente obstinada, cujas ações revelam uma personalidade megalômana com arroubos autoritários.

[1]Membro fundador, titular e didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre.