RETRATO DE UMA TRAGÉDIA
Quando baixarem as águas desta devastadora enchente, nossos olhos irão se deparar com uma realidade muito diferente, e vamos constatar que também nós, como indivíduos, não somos mais os mesmos. Como diz a canção, nada será como antes. Contudo, em cima dos escombros, apresenta-se a oportunidade de construirmos um estado mais previsível, mais seguro e mais solidário.
O cenário que assistimos expõe, de um lado, um número inusitado de vítimas da catástrofe e, de outro, um número inimaginável de doadores e voluntários que espontaneamente formaram uma imensa rede de atendimento de pessoas e animais resgatados das áreas alagadas. Entre os últimos, observa-se um sentimento de responsabilidade muito grande em relação aos primeiros, configurando uma unidade acima de qualquer diferença.
Nossa interpretação é de que esses gestos humanitários refletem um esforço de resgatar um vínculo de integração social, gerador do indispensável sentimento existencial de pertencimento, rompido pela inesperada aniquilação da estrutura sustentadora das nossas relações com o mundo que nos cerca.
Cabe entender que tudo se passou como se um mundo novo subitamente se apresentasse sob a forma de um desafio à subsistência de um povo orgulhoso de suas façanhas, que foi buscar em suas tradições a força necessária para lutar contra a impetuosidade da natureza.
Os próximos dias e, também, as próximas noites, porque não terá descanso, por certo serão muitos e difíceis, mas se não esmorecemos, sairemos dessa batalha fortalecidos como seres humanos. De acordo com as palavras de C. S. Lewis, as dificuldades preparam pessoas comuns para destinos extraordinários.


