OS DESAFIOS DA CLÍNICA HÁ 50 ANOS E HOJE

OS DESAFIOS DA CLÍNICA HÁ 50 ANOS E HOJE - Neste capítulo, Gley P. Costa enfatiza as diferenças nos desafios da clínica há 50 anos e no período atual, marcado pelo predomínio de problemáticas narcísicas, depressões e fenômenos limítrofes, que se mesclam ou se associam às patologias neuróticas da psicanálise tradicional.

 

Como contribuição ao tema, propõe o modelo do palco para entender um largo espectro de patologias que vão além das resultantes da repressão, cujo tratamento visa restabelecer as funções egoicas que confiram ligação à pulsão, criando representações do objeto e do conflito no caminho da simbolização. O modelo proposto  traz  de volta a descoberta seminal freudiana de que uma vivência infantil pode se fixar traumaticamente no mundo interno do indivíduo, configurando um cenário que afeta as cenas do palco analítico. Nessa linha, Green chama a atenção para a existência, no mundo interno, de um “objeto-trauma” que ameaça os alicerces narcísicos do paciente, contra o qual este se defende desobjetalizando seu próprio funcionamento psíquico. Vê-se, nessa situação interdiscursiva a importância do enquadre interno do analista, próprio da psicanálise contemporânea, a qual concebe o trabalho psíquico do analista como um eixo conceitual terciário, que procura incluir a atenção flutuante e a contratransferência como dimensões parciais e complementares de um processo complexo que ainda leva em consideração a imaginação, a criatividade, a sensibilidade e a regressão formal do pensamento do analista como modos de dar representabilidade ao não representado do paciente. Em síntese, a obtenção de um “psiquismo para dois corpos”, como diz McDougall, configurando um vínculo que gera experiência a partir de uma “presentação”, que produz conhecimento e não apenas o reproduz, como na representação, segundo Puget. A isso, Gley P. Costa chama de “cenário único”, quando então é possível paciente e analista criarem uma cena que, finalmente, pode ser entendida: não são mais dois indivíduos falando sozinhos.  Esse momento de grande criatividade do par analítico configura o que Bion (1987) definiu como “unidade humana”. Em outras palavras, o pensamento psicanalítico atingiu um estágio em que não se pode mais conceber um analista e um paciente que tomam um ao outro como objetos, é preciso encará-los como uma unidade, e tudo que se passa na análise deve ser considerado como decorrente da relação paciente-analista. Para Ogden, esse movimento dialético de subjetividade e intersubjetividade no setting analítico, que tem como interface o enquadre interno, constitui um aspecto central da psicanálise contemporânea.

 

Gley P. Costa

* Médico psiquiatra e psicanalista, professor de cursos de pós-graduação e escritor.