PODER E ONIPOTÊNCIA INFANTIL

Uma mãe dedicada, que idealiza e concede integral atenção ao seu bebê, gera nele uma sensação de onipotência que atenua os sentimentos de fragilidade e dependência que caracterizam os primeiros anos de vida.  Não obstante, ao longo do desenvolvimento, esse anseio de apoderamento, no início mediante a educação dos pais e, depois, por imposição da sociedade, passa por um processo de contenção e sublimação, alicerçando por esse meio as valorizadas capacidades construtivas do ser humano. 

 

Contudo, características pessoais inatas e gratificações ou frustrações excessivas na infância podem exacerbar essa necessidade de poder, o mesmo ocorrendo com identificações precoces com figuras possuidoras de uma força superior, real ou imaginária, contribuindo para a formação de uma mente megalomaníaca, a qual não reconhecerá limites para impor seus ideais de autoritarismo e grandeza. 

 Esses indivíduos comportam-se, como dizia Freud, segundo o modelo de “His Majesty the baby”, convictos de que tudo podem fazer e dizer e, quando contestados, reagem com desmedida agressividade. Além disso, não reconhecem seus equívocos e, quando fracassam em suas metas de poder, sem nenhum constrangimento, elegem outras aparentemente mais promissoras. Por conta disso, são desrespeitosos e apresentam um comportamento errático. Nada lhes é mais renhido do que destruir tudo que não lhe pertença, mas que possa ser admirado e valorizado. É conhecida a história de Astore Manfredi, príncipe de Faenza, jogado no rio Tibre com uma pedra amarrada no pescoço por César Bórgia porque cativava seus súditos com sua beleza e sua generosidade. A cultura, a arte e a beleza, quando ofuscam o seu brilho, tornam-se alvo de maledicência e tirania. Eles buscam inarredavelmente sua própria glória, em nome da qual tornam-se egoístas, rancorosos e vingativos. Na mesma linha, mostram-se indiferentes aos sentimentos de piedade, compaixão e altruísmo, assim como os de remorso ou arrependimento.  

A incapacidade de se frustrar e a necessidade de chamar a atenção permanentemente, faz com que a bajulação represente o principal aporte que esperam e até mesmo exigem dos lhes cercam, os quais são equiparados a uma mãe que alimenta permanentemente o narcisismo do seu bebê.  No entanto, quando ocorre de, por alguma razão, também chamarem a atenção ou receberem algum elogio, são imediatamente afastados sem qualquer consideração ou o mínimo reconhecimento.  Referem  Robert Greene e  Joost Elffers  que quando o ministro das finanças da França, Nicolas Fouquet, organizou a maior festa já vista em Paris para bajular Luiz XIV, achou que tinha conseguido a simpatia do rei. Contudo, foi preso no dia seguinte e condenado ao ostracismo pelo resto da vida. Referem os autores que Fouquet, sem saber, havia violado uma das mais importantes leis do poder: “Não ofusque o brilho do Mestre”. No caso, a festa tinha sido tão esplendorosa que fez o ministro aparecer tanto ou mais do que o próprio Luiz XIV, o que foi intolerável para o orgulhoso Rei Sol. 

   Quando governantes, a política que estabelecem é a do “nós” e “eles”, sendo que “eles” são maldosos, não valem nada e devem ser eliminados.  Para atingirem esse objetivo, não hesitam em mentir, pois seu compromisso com a palavra inexiste. Seguindo essa pauta, Hitler inventou que os judeus estariam por trás de uma conspiração que usaria soldados negros – vindos das colônias francesas para combater na Primeira Guerra mundial – para violentar mulheres arianas e, dessa forma, acabar com a “raça pura”.  O mito do “estuprador negro” teve uma grande repercussão nos Estados Unidos, onde foi compartilhado pela Ku Klux Klan, e gerou a prática, que durou décadas, do linchamento de homens negros para defender a pureza das mulheres brancas americanas, como destaca Jason Stanley,  professor de filosofia em universidades como  Yale, Oxford, Michigan e Cornell  no livro Como funciona o fascismo .    

Tanto para aparecerem quanto para atacarem os “inimigos do povo”, como chamam aqueles que os criticam, como se “povo e eles fossem uma única coisa, líderes com essa personalidade apropriam-se dos símbolos nacionais e, na medida do possível, dos meios de comunicação de massa para reunirem o maior número possível de “adeptos” de uma verdadeira seita que visa resgatar valores morais supostamente degradados. Entre esses valores, encontram-se, geralmente, o ideal da família patriarcal tradicional e o combate ao feminismo, ao  homossexualismo e à liberdade de gênero, conforme destaca Jason Stanley,  na citada obra.  Eles também manipulam a história em seu favor, escondendo ou distorcendo os fatos que não lhes convém e exacerbando aqueles que servem para denegrir os adversários.  O historiador britânico Richard Gruberger escreveu  que os nazistas incutiram na mente coletiva que democracia e corrupção eram sinônimos, justificando o estabelecimento do  regime de Weimar, falsamente constituído exclusivamente  por pessoas austeras e de elevada probidade moral.  Na mesma linha de tiro, eles colocam os meios independentes de comunicação, acusados de se encontrarem mancomunados com grupos ou potências contrárias aos interesses nacionais.      

No filme O ovo da serpente (1977), Bergman reconstruiu meticulosamente a Alemanha dos anos que antecederam a ascensão de Hitler para tecer uma profunda reflexão sobre as origens do nazismo. O título do filme tornou-se uma expressão utilizada para figurar tudo que, ao nascer, pode se tornar perigoso à coletividade. O ovo da serpente costuma entrar em cena quando uma nação passa por um período de recessão econômica, inflação, corrupção ou alguma forma de instabilidade política e surge um personagem sedento de poder que se apresenta como “salvador da pátria”.  Para tanto, ele ilude uma parte da população de ser capaz de tirar rápida e definitivamente o país de sua dificuldade mediante, segundo Hanna Arent , uma   doutrinária propaganda totalitária que visa isolar as massas do mundo real e oferecer um mundo maravilhoso completamente imaginário. Personagens desse tipo, muitas vezes dotados de limitada capacidade intelectual, portanto, mais suscetíveis a aceitarem o desempenho desse papel, encontram sua força na polarização, cujas raízes se nutrem da pulsão de morte, a qual, como sabemos, em oposição a Eros, busca a desunião e a destruição de tudo de bom que a humanidade foi capaz de criar. 

Um aspecto que torna essa situação mais complexa e ameaçadora é o fascínio que tal conduta desperta em grande número de pessoas que triunfam com o sucesso desses seres humanos sequiosos de poder e lhes concedem apoio incondicional, geralmente devido à duas razões: porque encontram alguém que dá voz à sua própria onipotência, em particular seus impulsos destrutivos, ou porque encontram alguém que podem usar para seus interesses de ocasião. Timothy Snyder , reconhecido professor de história de Yale, com premiados livros publicados em mais de trinta idiomas, destaca que quando pessoas começam a usar “uniformes” (vestirem-se iguais), desfilar com tochas e retratos do líder, “o fim está próximo”. Conquanto, quando esse grupo consegue se unir aos militares, “o fim chegou”.  Precisamos pensar  no velho adágio que diz que a história se repete.

  

[1] Publicado no Jornal da Brasileira, V.24, nº1, 2021.

[2] Membro fundador, titular e didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre.  Professor da Fundação universitária Mário Martins. Autor de livros de psicanálise

 

[3] As 48 leis do poder, Rocco, 1998

[4] L&PM, 2018

[5] The 12-Reich: A social history of nazi germany, Da Capo Press, 1995

 

[6] Origens do totalitarismo, Companhia das Letras, 1989