Se queres a paz, prepara-te para a paz
O decreto presidencial sobre a posse de armas implica duas demandas. A primeira é declarada e tem como meta a preservação da vida e do patrimônio. Contudo, tudo indica que somente em raríssimas situações ela será atingida, mesmo na reiterada propriedade rural, pois na maioria das vezes os assaltos são realizados em bando. É engano pensar que o bandido teme ser morto. Sua vida vale o mesmo do que a de sua vítima: nada! Por conta disso, em qualquer circunstância, se a arma for utilizada, um número maior de pessoas, dos dois lados, serão mortas, seja numa residência, seja num estabelecimento comercial, cujo proprietário igualmente tem direito à posse.
A segunda demanda, embora a mais influente, é não declarada e se relaciona com a pulsão destrutiva do ser humano, resultando no desejo inconsciente de morte, como revela o contraditório provérbio romano Si vis pacem para bellum, ou seja, se queres a paz, prepara-te para a guerra. Na disputa com suas capacidades amorosas e construtivas, o homem sempre encontrará uma razão para exteriorizar sua agressividade interna, por isso precisamos considerar que cada indivíduo armado é uma célula potencialmente destrutiva.
Tendo em vista essa realidade, é fácil concluir que, em primeiro lugar, na maioria das vezes, a arma será utilizada nos conflitos pessoais com vizinhos e familiares. Em segundo lugar, legal ou ilegalmente, em pouco tempo a posse de armas se transformará em porte, o que vai representar um retrocesso em termos de civilização, pois voltaremos a uma posição anterior à da organização do Estado. Como psicanalista que acredita no poder da palavra e no efeito curativo da verdade, opino que precisamos buscar outros caminhos para restabelecer a segurança no país, e inclino-me a pensar que silenciar diante dessa provável nova fonte de violência representa um verdadeiro crime.


