A disposição para o não

Leopold Nosek  publicou recentemente uma coletânea de artigos intitulada A disposição para o assombro.  Refere: “Se afirmarmos que   o pensamento se inicia pelo assombro, teremos a ideia básica que origina a psicanálise”.  Pareceu-nos interessante a ideia de uma disposição, no sentido de uma aptidão do ser humano para alguma coisa, no caso para dizer não. Parafraseando o autor, diríamos: se afirmarmos que a relação com o mundo inicia com um não, teremos a ideia básica que origina o juízo de atribuição. 

O conceito “não” inexiste no inconsciente. Representa, segundo Spitz , a conquista intelectual e semântica mais espetacular do ego na primeira infância. O não é o primeiro gesto simbólico de um conceito abstrato, mediante o qual o bebê nos diz que gostaria de manter isto dentro e aquilo fora. Em outras palavras, a engolir o que sente como bom e cuspir o que sente como ruim ou, ainda, afirmar ou negar que alguma coisa tem uma particular propriedade.  

Esta recusa que, por volta do terceiro mês, a criança expressa através de um movimento, dá origem ao juízo de atribuição que, nas palavras de Freud , corresponde ao surgimento de uma função intelectual a partir das moções pulsionais primárias. Configura uma atividade de pensamento que permite ao ego estabelecer a diferença entre aquilo que o beneficia e aquilo que o prejudica. 

O apagamento do juízo de atribuição, resulta no desligamento dos alarmes psíquicos que sustentam as pulsões de auto-conservação, e o indivíduo aceita tudo que o mundo lhe oferece, sem discriminar o que lhe é benéfico ou maléfico. Como ocorre em alguns relacionamentos, a pessoa entrega-se à vontade do outro. 

Um remédio pode ser ruim, mas é necessário, e terá que ser administrado ao bebê. Contudo, muitas vezes, o gosto do indivíduo ao longo de toda a sua infância não é respeitado minimamente, tudo lhe é empurrado goela abaixo. Na língua espanhola existe a expressão “madre mete bomba”, um objeto materno que Maldavsky  denominou de “déspota louco” .  Por conta disso, a criança  não desenvolve um juízo de atribuição e tudo o que lhe oferecem passa a ter o mesmo gosto, ou gosto nenhum, como observamos nos pacientes que formam a clínica do desvalimento . 

O juízo de atribuição é um atributo do ego prazer purificado que tem continuidade no ego real definitivo, quando então o que deve ser definido é se algo presente no ego como representação também tem existência no mundo real. O juízo se estabelece entre o que é subjetivo (interno) e o que é objetivo (externo), configurando o juízo de existência, regido pelo princípio da realidade. 

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[1] Membro fundador, efetivo e didata da SBPdePA. Professor da Fundação Universitária Mário Martins. Autor de livros de psicanálise.

[1] NOSEK, L. (2017). A disposição para o assombro. São Paulo: Perspectiva.

[1] SPITZ, R. A.  (1960). No y si: Sobre la génesis de .la comunicación humana. 2ª.Ed.   Buenos Aires: Horme, 1966.

[1] FREUD, S. (1925). La negación. Sigmund Freud: Obras completas. V. 19. Buenos Aires: Amorrortu, 1989.