A Escola e a Contemporaneidade

A ESCOLA E A CONTEMPORANEIDADE

Gley P. Costa

 

Cabe à escola a nova e fundamental tarefa de questionar as posições naturalmente atribuídas a homens e mulheres em função de sua biologia,

visando  derrubar os elevados muros do preconceito

 

A sociedade atual se caracteriza por grandes mudanças que ocorrem em velocidade vertiginosa, desbordando o papel social da escola que, até meados do século 20, ocupava um lugar situado entre o espaço íntimo da família e o espaço público do exercício da cidadania. A educação representava uma forma de preparar os jovens para ingressarem em um mundo comum de heranças materiais e simbólicas, promovendo o inter-relacionamento das gerações. Para tanto, o educador contava com a autoridade que a sociedade lhe atribuía e com um senso comum a respeito das conquistas da humanidade que deveriam ser preservadas do esquecimento.

 

No presente, a situação é diferente: a educação visa primordialmente ao desenvolvimento de competências, como ingressar numa universidade de renome, obter sucesso profissional, exercer uma função rendosa e conquistar uma posição social destacada, em detrimento de desenvolver capacidades para compartilhar o mundo com outras pessoas e participar da construção de projetos coletivos de preservação das tradições e da sobrevivência da humanidade. Em uma sociedade caracterizada pela supervalorização do novo e pela precária responsabilidade em relação à sustentabilidade da vida sobre o planeta, o legado das realizações humanas perdeu o sentido, ocorrendo o mesmo com a autoridade dos representantes desse patrimônio: os educadores. Na medida em que não se estabelece o conflito entre a tradição e o novo, porque a primeira foi desconsiderada, a educação falha em sua função de despertar no jovem a reflexão e o amadurecimento.

 

No passado, a escola era a janela que os professores abriam para que os jovens pudessem enxergar o mundo. Nos últimos 50 anos, entretanto, esse papel passou a ser desempenhado pelos meios de comunicação. Devido à sua presença permanente, a televisão tornou-se um novo e persuasivo membro da família, passando a ser mera repetidora de condutas e valores veiculados pela mídia. Principalmente no que diz respeito a valores e padrões de conduta, a criança e o adolescente não aprendem mais em casa ou na escola, mas pelos meios de comunicação, que indicam até os assuntos que devem ser tratados pela família. Como resultado, o mundo que deveria ser apresentado aos jovens pelos pais e professores numa relação pessoal, afetiva e de uma forma lenta e gradual, de acordo com a sua idade, faz-se agora massiva e rapidamente pela televisão, que não respeita as diferenças regionais, a cultura familiar, as faixas de idade e as peculiaridades individuais.

O mesmo se pode dizer da tecnologia, com seus avanços na comunicação, oferecendo ao indivíduo o acesso direto a um discurso imediato, cheio de opções, proporcionado pela internet. O lugar de encontro dos jovens, antes na frente ou no pátio da escola, é hoje predominantemente virtual, por SMS, Facebook, Twitter, WhatsApp, Instaggram, Snapchat e Tumbler acessados pelo celular. Por que questionar o professor na sala de aula, se pelo seu iPad ou iPhone, sem a necessidade de formular completamente a pergunta, obtém rapidamente pelo Google a resposta buscada? Em todas as formas de relacionamento, inclusive entre professor e aluno, assim como no amoroso, a palavra falada foi substituída pelas fotos e pela mensagem escrita, a qual inclui frases, textos e poesias cuja autoria nem sempre é indicada. Esse contexto fortemente mediatizado com preponderância da imagem, da exposição, da visibilidade e da celebridade entronizadas pelos mass media estabeleceu uma sociabilidade superficial e irresponsável.

Como não bastasse, a estrutura familiar também sofreu rápidas e profundas modificações. Em que pesem os excessos nefastos do autoritarismo, comuns em tempos mais antigos, observava-se nas famílias uma razoável definição dos papéis materno e paterno. Enquanto a mãe se ocupava dos cuidados básicos de sobrevivência e das necessidades de atenção e carinho dos filhos, criando uma atmosfera de intimidade no interior da casa, o pai cumpria a sua tarefa de representante das leis da civilização, da cultura e da sociedade, colocando aos filhos os limites indispensáveis à sua segurança e à sua adequação às normas de convivência dentro e fora de casa. Embora, por vezes, com exagero, as diferenças de gerações, por serem bem marcadas pelos pais, geravam nos jovens o sentimento de ainda não ser, responsável pelo surgimento do anseio de vir a ser – em particular vir a ser um pai, uma mãe, o que, em outras palavras, significava ingressar, mais adiante, no mundo dos adultos.

Todas essas mudanças, no entanto, não foram suficientes para abolir os preconceitos em relação às novas configurações familiares e às novas apresentações da sexualidade de jovens e adultos. No que diz respeito ao primeiro item, cabe destacar que o modelo de família nuclear, burguesa, monogâmica e heterossexual, dominante até e século passado, nos dias atuais cede cada vez mais espaço a famílias reconstituídas, com filhos do relacionamento atual e de casamentos anteriores dos cônjuges, de famílias monoparentais e, ainda, de famílias cujos cônjuges têm o mesmo sexo e os filhos são adotados ou nascidos por fertilização assistida. Constata-se, portanto, uma multiplicidade de arranjos possíveis na composição familiar.

É indispensável levar em conta que não é a biologia que define os papéis paterno e materno, mas a constituição, as vivências infantis e as identificações de cada um dos cônjuges. Esses papéis, inclusive, podem estar invertidos em um casal heterossexual e serem exercidos satisfatoriamente pelos integrantes de uma união homossexual ou serem desempenhados por uma única pessoa, homem ou mulher. Há, ainda, famílias em que a dupla parental é substituída por avós, irmãos mais velhos e até mesmo por empregados.

Em relação à vida sexual, faz-se necessário reconhecer que quando classificamos os indivíduos como heterossexuais ou homossexuais, estamos apenas nos referindo a uma orientação na escolha do objeto amoroso. Essa situação deve-se ao fato de que homens e mulheres, como resultado da disposição bissexual e da herança cruzada, apresentam características tanto masculinas quanto femininas. As preferências sexuais somente se transformam numa fonte de sofrimento quando não estão de acordo com a identidade do indivíduo ou, eventualmente, com as expectativas familiares. No entanto, são os estereótipos sociais, culturais e familiares que, em diferentes momentos da história, direcionam as pessoas no sentido da heterossexualidade ou da homossexualidade – duas palavras, aliás, que deveriam sempre ser escritas no plural para abarcar a pluralidade de apresentações que admitem as duas orientações. 

Tendo em vista uma compreensão mais profunda da alma humana, precisamos ter presente que dois homens, ao estabelecerem um vínculo amoroso, do ponto de vista da identidade, não deixam de ser homens, assim como duas mulheres não deixam de ser mulheres. Isso não exclui a possibilidade de, em alguns casos, dois homens ou duas mulheres se unirem de acordo com o modelo heterossexual de relacionamento, assim como um homem e uma mulher se unirem de acordo com o modelo homossexual. Da mesma forma que encontramos indivíduos com a sua heterossexualidade inibida, nos deparamos com indivíduos com a sua homossexualidade inibida. A homossexualidade, no entanto, não resulta de uma heterossexualidade inibida ou de um fracasso em desenvolver uma identidade masculina.  

Diante dessa realidade de extrema complexidade, além de revisar o seu papel social, cabe à escola uma nova e fundamental tarefa que consiste em questionar as posições naturalmente atribuídas a homens e mulheres em função de sua biologia e de sua capacidade reprodutiva, visando derrubar os elevados muros do preconceito. Não se trata apenas de “tolerância” em relação às novas configurações familiares e às novas apresentações da sexualidade, mas de plena e absoluta aceitação dos indivíduos naquilo que lhes é autêntico e singular. Quem sabe devesse ter uma placa na entrada de todas as escolas com o seguinte dizer: “Ensina-se a respeitar o outro”.  

 

Artigo publicado na Revista Pátio (Ano XIX, Nov. 2015 / Jan. 2016, p. 31-33).